ARTIGOS

por Marcia Ahrends

A Medicina Chinesa à luz do Xamanismo

 

O homem primitivo e o fogo

 

"A focalização das chamas bailarinas por longas horas com   exclusão de todos os outros estímulos sensoriais, bem poderia ter produzido estados estáticos, cabendo às chamas afastar a consciência do seu padrão de luta e fuga para um estado alterado, mais calmo, de repouso em vez de ansiedade"

 

"O fato de tantas religiões primitivas terem usado o fogo no ritual e no simbolismo confirma o poderoso domínio que esse elemento exerce sobre a consciência humana, remanescente das primeiras confrontações com esta "substância" reveladora de mistério". (Willard Johnson - Do xamanismo a ciência Uma história da meditação)

 

O simples fato de permanecermos imóveis, com a mente absorta no vazio que antecede toda a criação, focada nos movimentos vibrantes, ininterruptos e irreproduzíveis das chamas, vai restabelecendo nossa conexão consciente com

o fluxo vital que as anima. Daí surge a possibilidade de percebemo-nos como seres inseridos nesta teia energética que integra todas as coisas, e que possui leis próprias regendo seus ciclos e movimentos.

 

Rituais de Fogo Sagrado permanecem até hoje em várias tradições espirituais e, graças ao poder transmutador deste elemento, reconectam o homem aos aspectos mais sutis do Ser.

 

A meditação como meio sistemático de promover a união mística com o todo.

 

"De uma distância de mais de dois milênios lembra-nos    

 Chuang-Tzu que existem dois modos de compreender: o que se  

 alcança por meio dos sentidos e o que se atinge por meio do

 êxtase meditativo" (Willard Johnson)

 

"Quando uma pessoa insiste nos objetos dos sentidos

 Surge o apego a eles.

 Desse apego nasce o desejo:

 E do desejo jorra a cólera.

 

 Da cólera resulta intensa confusão,

 Da confusão vem a perda do domínio de si mesmo

 Com a perda do domínio de si mesmo falha a mente profunda,

 E dessa falha morremos".

                                                                        (Bhagavad-Gita, Cap.2, 62-3)

 

 

  - Difusão do Xamanismo

 

"O xamanismo é o nome atribuído ao que muitos descreveram como a maior religião do mundo. Tendo nascido há cerca de oito mil anos na Sibéria, espalhou-se pela China, passou para o Japão e entrou no sudeste da Ásia. Viajou através da ponte natural da Sibéria para o Alasca, descendo depois pelas Américas do Norte e Central. Seus seguidores ainda hoje estão ativos, sendo a partir deles, bem como de algumas antigas fontes, que conhecemos algo a respeito desta grande tradição religiosa".

                                                                      (Martin Palmer - Elementos do Taoísmo)

 

 

"Nos tempos antigos, quando Fu Hsi governava o mundo, ele olhou para cima, para observar os fenômenos dos céus, e se voltou para baixo, para observar os contornos da Terra. Observou os padrões dos pássaros e das feras, e o modo como se adaptavam aos seus habitats. Extraiu algumas idéias do seu próprio corpo, e foi, além disso, extraindo idéias de outras coisas. Desse modo ele inventou os oito trigramas, a fim de compreender as virtudes dos seres espirituais e representar as condições de todas as coisas na Criação".

                                                  (Grande Tratado no I Ching, segundo Martin Palmer)

 

Ao efetuarmos este mergulho surge a possibilidade de reencontrarmos o caminho para restabelecer nossa conexão com o Todo, pois a interdependência de todas as coisas pode deixar transparecer em que parte da teia a harmonia foi perdida.

 

Sendo assim, os sensitivos ou xamãs dos primórdios da medicina chinesa perceberam que as manifestações mais sutis, não visíveis ou imateriais eram infinitamente mais importantes do que o que podíamos ver e tocar, já que a primeira preconizava a segunda e que pela sutileza da primeira, intervenções sutis podiam restabelecer seu fluxo fisiológico, impedindo que as disfunções se alastrassem pelos níveis mais densos e materiais.

 

-  O Xamã e o Imperador

 

"O que havia no xamanismo que ajudou a idéia do Tao a emergir, foi o senso de um relacionamento entre as leis da Natureza e o poder supremo do Universo. Esta idéia

de que a harmonia e o equilíbrio dentro da Natureza refletem a harmonia e o equilíbrio do Universo é tão fundamental para o xamanismo, quanto para o taoísmo.

A idéia de fluir com o Caminho, de se curvar e assim sobreviver, reflete a atitude xamanística diante da vida à nossa volta. Um exemplo desta atitude que permaneceu praticamente inalterada desde as épocas mais remotas até o início do século XX, foi o papel do Imperador como mediador entre o Céu , a Terra e a Humanidade". (Martin Palmer)  

 

Cabia ao Imperador a interpretação dos fenômenos e movimentos da natureza e, a partir do conhecimento das interrelações e interdependências, traduzir como isto poderia influir nos organismos dos humanos e nas plantações e colheitas. A idéia não era em absoluto de controlar a Natureza, mas sim de aprender a fluir com ela, preservando a homeostase do Todo.

 

· Xamanismo Brasileiro

 

"Para entender o que é o ciclo de Tupã torna-se necessário saber que os anciões da raça vermelha detinham uma ciência, a que chamamos "Arandu Arankuaa", que significa "A Sabedoria dos Movimentos do Céu", que trata da lei dos ciclos da Terra, do Céu e do Homem". (Kaka Werá Jecupé  A terra dos mil povos)

 

"A Tradição do Sol, da Lua e da Grande Mãe ensinam que tudo se desdobra de uma fonte única, formando uma trama sagrada de relações e inter-relações, de modo que tudo se conecta a tudo". (idem)

 

"A arte de ler os sinais através do movimento dos pássaros, dos ventos, dos rios e do fogo é para o povo indígena a maneira pela qual a Mãe Terra conversa com o ser humano. Essa fala silenciosa faz parte do caminho do coração". (idem)

 

Nossos antepassados bastante próximos sacralizavam esta conexão com o Todo , pois, apesar de tidos como primitivos pelos colonizadores, entendiam que nenhuma harmonia é possível, em nenhum nível da existência, seja físico, emocional, existencial, social ou político, quando desconsideramos e desrespeitamos nossa integralidade com o Todo.

 

A origem deste conhecimento ainda não nos foi dado conhecer, mas embora tenha se perdido em algum lugar do tempo, permanece sempre atual e essencial.