ARTIGOS

por Marcia Ahrends

Diferenças entre a "Doutrina" do YIN/ YANG e o Maniqueísmo Sectário

 

Muitas vezes a nossa compreensão resvala quando tentamos abarcar conceituações mais abrangentes e profundas associadas ao conhecimento da dinâmica existente entre Yin e Yang. De fato estamos muito habituados a separar realidades díspares de forma sectária e excludente, devido a tendência maniqueísta da cultura hegemônica. Segundo esta visão o “bem” e o “mal” estão inequivocamente divorciados, cabendo a cada pessoa a opção por um deles e a conseqüente exclusão definitiva do outro do cenário de suas vidas. Tomamos todas as precauções e cuidados para manifestar somente o melhor em nós, o bem, o bom, o belo e o agradável e repudiamos de tal forma seus opostos que já não podemos admiti-los, e passamos a percebê-los apenas do lado de fora, nas atitudes alheias.

 

Mesmo assim somos insistentemente surpreendidos com as mais variadas manifestações de nossa sombra e o despreparo é tamanho que tudo que daí advém é um sentimento de vergonha ou culpa, ou a atribuição da culpa a uma outra pessoa. É justamente a vergonha e o medo da culpa que dificultam à nossa vaidade pessoal de admitir qualquer  “imperfeição”. A culpa, o medo e a vergonha tornam os seres manipuláveis e dependentes de orientações externas. Descrentes de suas próprias impressões e discernimento, procurando respostas e bodes expiatórios do lado de fora, vai se construindo uma realidade fictícia, cristalizada e facciosa, distante de toda verdade plural, múltipla, mutável, imprevisível e singular com a qual somos brindados a cada momento.

 

Ninguém tem dúvida de que o dia é filho da noite e de que a noite também nasce do dia. Luz e trevas se sucedem, dando origem à outra e é do ventre mais escuro e fecundo que toda vida humana vem à Luz. Quando nos julgamos perfeitos, excluindo as imperfeições, nos tornamos arrogantes e prepotentes e achamos que nada mais temos para aprender.  Somos perfeitos de fato, mas nossa perfeição engloba tropeços e desacertos. São exatamente nossos benditos erros que nos apontam para possibilidades infindas de aprimoramento, que nos impulsionam de forma criativa a despertarmos potenciais que de outra forma não teriam a chance de serem conhecidos.

 

Quando conseguimos acolher com compaixão nossos desacertos, pegar nossa pequenez no colo com paciência materna,descobrimo-nos adultos responsáveis, capazes de arcar com nossas imperfeições, com nossa obscuridade, sem subterfúgios e escapismos, sem a atitude covarde de atribuir a terceiros o porquê de suas manifestações. Daí, estamos bem próximos de nos tornarmos íntegros, inteiros, honestos e verdadeiros e corajosos ao ponto de poder buscar as soluções e as respostas dentro de nós mesmos, pois o que vemos do lado de fora é claramente o reflexo de nossas próprias impressões. Assim é a dinâmica que ocorre entre o Yin e o Yang; cada um contem a semente do outro e um se transforma no outro em ciclos ininterruptos, contínuos e mais ou menos regulares.  Um controla o outro, mas também dá origem ao outro e são, portanto, interdependentes. O ser humano encontra-se no centro da inter-relação existente entre as influencias celestes e as terrestres.  Ele é, na verdade, um dos resultados possíveis desta inter-relação, bem como todas as outras formas de vida sobre o Planeta.  Isso expressa sem dúvida uma amostragem bem ampla de matizes da dinâmica do Yin/Yang através do Céu e da Terra. Nosso organismo é assim constituído de matéria densa, agregada e sólida, provinda da Terra, bem como de elementos sutis, diáfanos e imateriais provindos do Céu.  Estas duas energias se interpenetram em nós (e também fora de nós) criando toda a expressão da própria vida. O corpo físico provém das profundezas abissais e fecundas do planeta e toda a fluência de nossa vida psíquica dimana dos eflúvios celestes. Acontece que da mesma forma que dia e noite se sucedem, um dando origem ao outro, as estações do ano também o fazem, em ciclos maiores e as fases da vida, em ciclos maiores ainda.  O mesmo ocorre, no entanto, com os ciclos respiratórios e cardíacos e outros menores e mais profundos de nossa fisiologia, nem todos visíveis ou mensuráveis.

 

Todos os fenômenos na natureza e também na nossa fisiologia podem ser abordados sob este enfoque. É justamente a prática desta observaçãoda conexão existente entre o que está fora e o que está dentro, que fundamenta toda a riquíssima teoria da Medicina Chinesa. Uma lógica que nada nega é infinitamente abrangente, pois a própria negação é apenas uma face ou fase complementar à aceitação.  Assim podemos fazer a opção por observar e não negar e estaremos adentrando os mistérios da multiplicidade. O organismo humano está organizado de tal forma, que podemos atribuir-lhe qualidades referentes aos mais diversos aspectos relacionados ao Yin/Yang.

 

(09/03/2007)